Resenha: Princesa de Papel, de Erin Watt

“Ainda acredito nisso. Ainda acredito que tem alguma coisa boa por aí me esperando. Só preciso continuar em frente até minha hora chegar, porque é claro, claro que nada disso aconteceria se não houvesse uma recompensa no caminho.”

*Essa resenha contém spoilers

Oi, oi, gente!

Resolvi começar a republicar minhas resenhas aqui pelo blog novo por uma das mais críticas que já escrevi, sobre o livro “Princesa de Papel”, de Erin Watt, publicado pela Editora Essência (2017, 368 páginas).

Comprei esse livro na promoção do Dia da Mulher da Saraiva do ano passado e fiquei super feliz por ter adquirido esse exemplar, na época recém lançado, por um precinho bem camarada. Eu já havia visto algumas opiniões negativas sobre ele, mas a maioria era positiva, assim como a nota no Skoob (4,0).

Ainda, a premissa inicial do livro é muito parecida com a de um dorama pelo qual sou apaixonada, “Hana Yori Dango“, cuja versão coreana chama-se “Boys Over Flowers“. Somado a isso, a belíssima capa contribuiu para que eu desse uma chance, mas gostaria muito de ter parado aí.

livro princesa de papel

“Princesa de Papel” é o primeiro livro da série The Royals, e conta a história de Ella Harper, uma jovem que nunca conheceu o pai e passou a vida mudando de cidade em cidade com a mãe, uma mulher instável e problemática, acreditando que em algum momento as duas conseguiriam sair do sufoco.

Mas agora a mãe morreu, e Ella está sozinha. É quando aparece Callum Royal, amigo de seu pai, que promete tirá-la da pobreza. A oferta parece tentadora: uma boa mesada, uma promessa de herança, uma nova vida na mansão dos Royal, onde passará a conviver com os cinco filhos de Callum.

Ao chegar ao novo lar, Ella descobre que cada garoto Royal é mais atraente que o outro – e que todos a odeiam com todas as forças. Especialmente Reed, o mais sedutor, e também aquele capaz de baixar na escola o “decreto Royal” – basta uma palavra dele e a vida social da garota estará estilhaçada pelos próximos anos. Reed não a quer ali. Ele diz que ela não pertence ao mundo dos Royal. E ele pode estar certo.

O que achei:

Sério: se você leu esse livro e não encontrou NADA errado no roteiro, eu sugiro que você releia com a mente e os olhos bem, bem abertos mesmos, porque o livro é recheado com um festival de abusos que me deixou desconfortável, com um enorme ponto de interrogação bem no meio da testa!

Para começar, fui surpreendida com o conteúdo, que contrasta com a capa fofa e o título (embora ele faça sentido). Eu estava esperando algo um pouco mais leve, mas o linguajar utilizado pelos personagens foi meu primeiro choque. Ainda não tinha lido um NA com tantos palavrões e outras obscenidades, mas passei por cima por já ter lido livros de gêneros semelhantes com essa mesma abordagem. Até aí OK.

Acontece que Ella é hostilizada desde o momento em que pisa na casa dos Royal, e até aí tudo bem também. É a condição necessária para que o enredo se desenvolva. Mas, nesse período de adaptação dela na casa, acontecem tantas bizarrices que a leitura se tornou um martírio para mim, infelizmente.

A hostilidade sofrida por ela envolve bullying e um assédio moral desgraçado, além de assédio sexual, tudo mascarado de humor adolescente. Um dos garotos chega até a colocar a mão no pênis e ficar exibindo pra ela de forma ameaçadora (o que é magicamente esquecido depois). Ella é desrespeitada em 99,9% do livro: entram em seu quarto sem bater na porta, mandam nela constantemente, ela nunca tem voz na casa e, além disso, é chamada de vadia e tantos outros belos adjetivos por conta de seu passado como stripper.

Mas o que coroou meu nojo foi uma parte específica em que ela é drogada em uma festa e sofre uma tentativa de estupro por um colega da escola, que injeta ecstasy em Ella. “Resgatada” pelos irmãos Royal, a menina está sofrendo com uma das reações da droga, que é um alto grau de excitação sexual. Aí, pasmem: os garotos se reúnem para decidir quem vai “satisfazê-la”, até que Reed diz que tem que ser apenas ele. Então, pasmem novamente: ele simplesmente tem relações sexuais com Ella! E a menina estava sob efeito de droga! Gente, que romantização de estupro de vulnerável é essa?! E as autoras ainda tem coragem de colocar frases da personagem justificando que ela queria aquilo não pelo efeito das drogas, mas pelo desejo sexual pelo carinha. Oi?! Isso sem falar que Reed é um dos mais babacas com Ella, sempre a tratando de forma humilhante na frente de todos. Em outra cena, ele ainda a questiona se ela se sentiu usada, e ela afirma que não. MEU DEUS!

Além dessa situação bizarra, ainda tem cenas esquisitas DEMAIS envolvendo o pai da família com sua namorada novinha, que parecem não conseguir se controlar quando o assunto é sexo e saem fazendo o que der na telha, não importa quem está na frente; isso sem falar nos irmãos Royals que são gêmeos e transam com a mesma namorada. Para finalizar, a cena final é perturbadora! Depois de tudo que a menina passa e do romantismo esquisito criado, ainda somos metralhados com uma cena bizarra onde um dos filhos transa com a namorada do pai. UAU…!

Eu sempre fico MUITO preocupada quando vejo esse tipo de leitura, especialmente quando o ambiente é criado para que o relacionamento doentio protagonizado pelos personagens sejam endeusados e não pareçam errados. O público do livro é jovem (Ella tem apenas 17 anos) e romantizar situações que merecem repúdio é triste, baixo, o fim da picada… Ainda mais em tempos onde combatemos tanto esses males sociais como o bullying, o machismo, a violência contra mulher e se fala tanto, tanto, tanto sobre empoderamento. Fiquei incomodada durante toda a minha leitura, e pensando o tempo todo “sério, não estou lendo isso, me belisca”.

Não sei porque as autoras tem uma necessidade de colocar a mulher num papel humilhante desse, aceitando migalhas de um relacionamento que nem existe, totalmente abusivo, sofrendo e velando coisas escrotas como se fossem situações de romance e proteção, romantizando e, pior, levando a crer que não são nada demais e podem facilmente ser esquecidas se o carinha for rico e bonito. Mais ainda: DUAS autoras assinam esse escrito, sob o pseudônimo de Erin Watt. Como é possível que nenhuma das duas tenha considerado isso anormal?!

Não gostei do enredo e minha nota foi 1,5, porque pelo menos consegui terminar de ler. Fui altamente criticada por “levar a sério um livro desse tipo”, pois as pessoas acham que você já tem que ler um NA com expectativas baixas. Mas gente, não, eu não consigo. Ler é uma experiência importantíssima e existe tanta coisa para refletir nas entrelinhas que é impossível ler por ler, sem querer extrair nada de conteúdo de um livro – ao menos, essa é a minha opinião.

Existem partes até boas, como a amizade singela de Ella e Valerie e a superação da personagem desde sua infância cheia de problemas ao viver com sua mãe stripper até seus 17 anos. Além disso, a escrita da autora flui bem e prende, mas para por aí. Tinha potencial para ser muito bom. Ella poderia ser uma baita de uma badass, mas a rebeldia, o fato de não se curvar perante quem queira humilhá-la vai sendo completamente perdido tão logo ela começa a se apaixonar. Não continuarei a série, que contará com 5 livros e um spin-off, e minha experiência negativa com as autoras parou por aqui também.

Quanto à edição física, é triste que uma capa tão linda comporte um enredo tão nojento. A coroa tem aplicação de tons dourados, bem belezinha. As fontes são de ótimo tamanho e a página amarelada é muito agradável ao toque. Cada capítulo é iniciado com o desenho da coroinha que ilustra a capa. Encontrei alguns errinhos de digitação na edição, mas nada que atrapalhe na leitura, embora possam incomodar. Infelizmente não poderei mostrar mais detalhes para vocês porque, tão logo acabei a leitura, já fui trocando o livro no Skoob, rs.

A série já possui outros três livros publicados no Brasil com capas igualmente lindas, que eu infelizmente não vou ler… 😦 Confiram:

Mas e vocês, já leram ou pretendem conhecer “Princesa de Papel“? Vou adorar saber se vocês já leram o livro e sentiram o mesmo que eu. E, se curtiram, gostaria de saber a opinião de vocês também. É sempre bom conhecer vários pontos de vista, então comentem aí o que vocês acharam! 😉

E fica o alerta: não caiam nessa! Não leiam apenas por ler. Analisem criticamente tudo o que vocês consumirem, mesmo um romancinho que parece ingênuo à primeira vista. Essas situações que colocam a mulher em posição de ser abusada, mas que são mascaradas, nos fazem pensar que é normal viver assim, quando não é, e temos que nos levantar quanto a isso. Nada de confundir atração e paixão com fazer papel de trouxa, por favor!

NOTA1 (1,5)

Beijos e até a próxima!

Continue acompanhando o blog nas redes sociais:

Instagram – Skoob – Twitter – Bloglovin’ – Canal Literamigas

Anúncios

Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s