Resenha: O Conto da Aia, de Margaret Atwood

“Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem que se esforçar para fazê-lo.”

Oi, oi, gente!

Talvez o melhor livro que li esse ano (ao menos até agora), “O Conto da Aia“, da autora canadense Margaret Atwood, publicado pela Editora Rocco (2017, 368 páginas), foi minha nona leitura de 2018.

Escrito originalmente em 1985, trata-se de um romance distópico, que voltou a ser altamente comentado no mundo todo nos últimos tempos por ter inspirado a série The Handmaid’s Tale, produzida pelo canal Hulu (que eu infelizmente ainda não tive oportunidade de assistir), a qual já foi bastante premiada.

o conto da aia livro

Essa ficção futurista é ambientada num Estado teocrático, totalitário e machista, onde as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo. Vivendo nesse mundo, conhecemos Offred, uma mulher que não tem outra função no mundo a não ser gerar filhos. Porém, esses filhos não serão dela, pois Offred é uma aia: ou seja, ela serve a uma família para fins unicamente de procriação.

O plano de fundo aqui é a República de Gilead (anteriormente os EUA), onde as mulheres são divididas em classes, de forma que melhor sirvam a sociedade, enquanto os homens normalmente são mais livres e exercem postos de comando. Além das aias, temos também as Marthas, as Tias, as Esposas etc., cada uma com um papel a desempenhar.

Offred, na verdade, não é o nome real da nossa protagonista. Aqui, as mulheres sequer tem direito aos seus nomes reais. Antes de se encontrar nesse estado, porém, ela era casada com Luke e tinha uma filha, os quais ela não sabe se estão vivos ou mortos. Assim, ela passa seus dias vivendo conformada e entorpecida com sua função, até que novos acontecimentos mudam sua rotina e ela descobre um mundo diferente por trás das fachadas sociais.

“Talvez eu não queira saber de verdade o que está acontecendo. Talvez eu prefira não ter conhecimento. Talvez não possa suportar o conhecimento. A Queda foi uma queda da inocência para o conhecimento.”

O que achei:

O Conto da Aia” é uma leitura indigesta e inquietante. Para nós, mulheres, mais ainda. Ele me deixou com uma sensação de angústia, nojo e desconforto durante toda a leitura. Justamente por isso, é difícil falar sobre ele e colocar em palavras o que senti ao ler.

A princípio, é um livro um pouco difícil de entender. Isso porque sabemos a história por meio de Offred, que o narra em primeira pessoa. A ordem dos fatos não é cronológica, logo somos levados para o presente e o passado por meio das lembranças da protagonista, além de conhecermos seus pensamentos, devaneios e pesadelos. É assim que, aos poucos, as coisas vão fazendo sentido (ou não).

“A juventude deles é comovente, mas sei que não posso me deixar enganar por ela. Os jovens são com frequência os mais perigosos, os mais fanáticos, os mais nervosos com suas armas. Ainda não aprenderam com o tempo sobre as coisas da vida. Você tem que ir bem devagar com eles.”

O enredo é, basicamente, a narração da vida na República, onde mentalmente vamos formando na nossa cabeça como as coisas funcionam, uma vez que a autora não nos entrega tudo mastigado, o que nos causa estranheza. Existem detalhes minuciosos sobre os costumes do lugar, formas de tratamento, designações, rituais e até mesmo as vestimentas características de cada membro da sociedade. Vale destacar aqui como é criado o nome das aias. Não quis colocar na resenha para que vocês tivessem o mesmo impacto que eu tive ao descobrir o significado, de dar nó na garganta.

the handmaids tale

O que o torna tão visceral é justamente o fato das mulheres serem subjugadas e tratadas como objetos: meras peças de um tabuleiro que podem ser descartadas a qualquer momento, utilizadas para se atingir um fim específico que elas sequer escolheram.

Aqui, as mulheres não tem voz ativa, não podem conversar, ler, ter vaidade. Quanto menor sua função, menos direitos têm. Ao longo do livro, também descobrimos uma espécie de submundo, onde mulheres que conseguiram fugir do sistema vivem em condições tão precárias quanto, embora sejam “livres”.

É de cortar o coração ver a angústia de se viver dia após dia dentro da sua própria cabeça, sem poder externar seus sentimentos e emoções, sem ter voz ativa, sem poder escolher seu próprio destino. São tantos pontos a enaltecer nessa obra que é muito difícil conversar à respeito sem soltar spoilers, haja vista que, a cada virar de páginas, nos surpreendemos com situações cada vez mais inusitadas.

“Mas isso está errado, ninguém morre por falta de sexo. É por falta de amor que morrermos. Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas. Também sou uma pessoa desaparecida.”

Vi muitas críticas à protagonista com relação à sua passividade acerca dos acontecimentos aos quais é submetida. No entanto, devemos ter em mente que quem se rebelava corria risco de morte. Logo, quem iria contra o sistema? Não julguei a personagem em momento algum, até porque talvez a esperança de um dia rever a família era uma pequena chama que a movia e dava forças para que ela permanecesse viva.

Apesar de intenso, existem alguns pontos onde a história se arrasta bastante, o que o torna um tanto monótomo. Além disso, o vem e vai temporal também desmotiva um pouquinho pela confusão causada, mas nada que, com esforço do leitor, possa ser superado, sem prejudicar a leitura.

Adorei ter lido esse livro, que foi meu primeiro contato com a Margaret. Já o considero uma leitura obrigatória e recomendo de olhos fechados não só para quem ama distopias, mas para se fazer uma profunda análise política dos rumos que nossa sociedade vai tomando, para que nossos direitos e nossa voz não sejam silenciados como em Gilead.

“Um rato num labirinto está livre para ir a qualquer lugar, desde que permaneça dentro do labirinto.”

NOTA: 4

E vocês já leram esse livro? O que acharam?

Beijos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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