Resenha: 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama, de Melissa Panarello

“Não estou mal e também não estou bem, a coisa preocupante é que ‘não estou’.”

Oi, oi, gente!

Fazia muito tempo que, por acaso, assisti ao trailer do filme “100 Escovadas Antes de Dormir” e fiquei bastante curiosa quanto a ele. Quando descobri que havia sido baseado em um livro, fiquei mais curiosa ainda, e esse drama acabou entrando para minha wishlist. No entanto, pelo trailer, não dá pra entender muito bem até onde a história vai nos levar, e eu só conhecia superficialmente a sinopse do livro. Pelo título também não dá pra ter uma boa percepção do que se trata a história, mas ele é tão inusitado que foi meu maior convite para conhecer “100 Escovadas Antes de Ir Para a Cama“, de Melissa Panarello, publicado pela Editora Objetiva (2004, 163 páginas).

Livro-100-Escovadas-Antes-de-Ir-para-Cama-Melissa-PanarelloO livro é bem curto, tanto que o terminei rapidinho, em dois dias. No entanto, logo no início da leitura, me deparei com a sinopse completa e fiquei com um certo receio de não gostar nada do livro, pela temática forte. Ele conta a história da Melissa, uma adolescente de 15 anos da pequena cidade italiana de Catânia, na Sicília.

Durante a experiência da sua primeira vez, ela entende, ou tem a ilusão de entender, que os homens não estão interessados na essência de uma mulher, nem são capazes de amar prescindindo da carne. Assim, Melissa passa a oferecer o próprio corpo a quem quer que o peça, entregando-se esperançosa de que alguém, ao olhá-la nos olhos, perceba sua sede de amor.

É o início de um período de dois anos em que a adolescente experimenta as mais variadas práticas sexuais, incluindo as menos convencionais, como sexo grupal com desconhecidos e sadomasoquismo. Em sua busca desenfreada pelo verdadeiro amor, Melissa acaba caindo em um túnel escuro e sujo de humilhação e dor, onde se arrisca a perder para sempre aquilo que tem de mais precioso: ela mesma.

“Sinto-me bem com a cumplicidade da música e não preciso de mais nada.”

O que achei:

Bem, para começar, na contra-capa temos a informação de que a história é quase uma biografia da autora, que, além de ter o mesmo nome da protagonista, afirma que viveu na própria pele as experiências que a personagem narra ao longo do livro. Isso fez uma diferença enorme na forma como eu encarei não só Melissa, mas a leitura como um todo. E, sim, isso fez muita diferença.

O livro é, no geral, muito confuso. Ou melhor, Melissa é muito confusa – e totalmente contraditória. Nos deparamos, aqui, com uma personagem extremamente precoce, ao menos ao meu ver, com uma sexualidade extremamente aflorada e psicológico extremamente frágil.

Ela, com apenas 15 anos, sentia a necessidade de viver suas primeiras experiências sexuais, ou melhor, sentia necessidade de ser amada. Mas o caminho para conseguir esse amor foi conturbado e humilhante.

Melissa mantinha um ritual estranho, e até bizarro, de culto a ela mesma, como se ela fosse um ser imaculado, belo, que necessita apenas de amor. A relação dela com ela mesma era de um narcisismo evidente (como ela mesma confessa ao se chamar de Narcisa). Mas existia a necessidade de entregar-se a outro alguém que a fizesse se sentir tocada até a alma.

“O que me falta é amor, é de um cafuné que eu preciso, é um olhar sincero que eu desejo.”

Um dia, Melissa conhece Daniele e se apaixona por ele. Logo, sente que é ele o rapaz com quem terá sua primeira relação. No entanto, a experiência resultou em algo totalmente diferente do qual ela imaginava, e dele ela saiu ferida e humilhada. É a partir daí que começa a busca frenética dela por alguém que conseguisse vê-la além de um objeto sexual. Ela queria que alguém a amasse e protegesse, mas, honestamente, não entendi nada dos motivos dela pra ter escolhido esse caminho, de entrega a qualquer um que desejasse seu corpo, como uma forma de encontrar o verdadeiro amor.

Em muitos trechos, ela se contradiz demais. Quer ser amada, mas se permite ser abusada e tratada como objeto. Odeia determinado homem, mas faz tudo o que ele pede. Não gosta de ser humilhada, mas permite que façam com ela – e digam a ela – as coisas mais baixas. Reclama de falta de amor, deixa claro que acha que os pais são totalmente apáticos com ela, mas não se esforça pra ser uma pessoa melhor. Reclama de tudo – tudo é chato, tudo irrita. Mas prefere ser uma mulher (ou melhor, uma menina) repugnante do que fazer o que quer, que era se manter longe desse cenário medíocre.

“Passei todos esses meses me arrastando, carregando nos ombros a minha incapacidade de me adaptar ao mundo; só vejo mediocridade ao meu redor e só a ideia de sair já faz com que eu me sinta mal. Para ir aonde? Com quem?”

Enfim, foi uma leitura muito, muito estranha. E é super fácil julgar Melissa. Uma pessoa que tem tudo, desde educação a conforto, e saí por aí feito uma prostituta, com tão pouca idade, permitindo-se ser abusada por qualquer homem asqueroso pra “se encontrar”, como se esse fosse o jeito certo pra encontrar o amor e, ainda por cima, arrepender-se de tudo após ter realizado o ato, é, no mínimo, absurdo e repugnante.

Pela descrição dos seus sentimentos, acredito que ela poderia sofrer de algum tipo de depressão (ou não), visto que se sentia sempre vazia e sozinha, além de chorar com frequência. No entanto, não compreendi o comportamento dela, muito menos o tive pra mim como aceitável, mesmo com toda a enxurrada de sentimentos pelo qual ela passou. Fiquei desapontada e entristecida com a personagem, que se sentia abusada e sentia que aquele comportamento não era correto nem bom pra ela, mas, em compensação, se afundava cada vez mais naquilo, como se fosse uma doença (e talvez fosse, realmente).

A história é contada em primeira pessoa, em forma de diário, e contém as descrições de Melissa de seus encontros e experiências. Justamente por isso, e pela linguagem vulgar que é usada nessas cenas, o livro é considerado adulto. No entanto, Melissa usa expressões um tanto poéticas em várias partes do livro, o que o deixa ainda mais estranho, mais surreal, pois a poesia contida nas palavras de Melissa contrasta com o universo sujo que ela começa a habitar.

“(…) queria mais violência, violência até não poder mais. Me acostumei, talvez não consiga mais passar sem isso; seria estranho se um dia a doçura e a ternura batessem na minha porta e me pedissem para entrar. A violência me mata, me estraga, me suja e se nutre de mim, mas com e por ela sobrevivo, dela me alimento.”

No geral, minha classificação negativa não vai nem para o livro em si, mas para Melissa, pois, como disse, o fato de ser uma história real não me fez crer que eu estava lendo algo, mas sim ouvindo alguém me contar uma história bizarra, com uma protagonista fraca e precoce ao extremo. Impossível não fazer um paralelo com minha própria vida e constatar que, nessa idade, eu ainda gostava de coisas “de menina / criança”. Não julgo Melissa no sentido de ter tido sua primeira experiência nessa idade, nem creio que uma vida sexualmente ativa seja “suja”, mas confesso que olhei torto para o extremo no qual ela chegou em uma busca desesperada e completamente ingênua por um sentimento que jamais será encontrado por meio do sexo. Tanto é que, ao meu ver, a ingenuidade de Melissa é retratada no próprio título do livro. As 100 escovadas antes de dormir eram uma forma que ela encontrava de se “purificar”: uma historinha que a mãe dela havia contado do ato que as princesas faziam antes de ir para a cama, para manter os cabelos brilhantes.

Fiquei curiosa para assistir o filme, mas, pelo que já percebi após rever o trailer, muitas partes não tem nada a ver com o livro. Confesso que jamais irei relê-lo, pois me deixou meio revoltada… Esse assunto não me é agradável, pois acho que, cada vez mais, os jovens tem perdido sua inocência e deixam de vivenciar as experiências mais importantes daquela idade pra tentar entrar precocemente no mundo adulto, como se a sensualidade e a sexualidade fossem mais importantes que todo o resto.

“Uma princesa, como minha mãe sempre disse, tão linda que até os sonhos querem roubá-la.”

Ao final da leitura, dá até pra tirar uma pequena lição, mesmo que velada nas últimas linhas, de forma extremamente sutil. Quem ama verdadeiramente, ou quem busca um amor de verdade, não precisa de forma alguma passar pelas experiências degradantes de Melissa.

NOTA: 2

Vocês já leram esse livro ou se interessaram por ele? O que acharam da história?

Beijos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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