Resenha: Batendo à Porta do Céu, de Jordi Sierra i Fabra

“Ninguém vai mudar o mundo – refletiu a mulher. – O importante é fazer algo no lugar onde estamos”

Oi, oi, pessoal!

Batendo à Porta do Céu” (título original: “Llamando a las puertas del Cielo“), do autor Jordi Sierra i Fabra, foi originalmente publicado na Espanha em 2006. Sua edição brasileira foi lançada pela Editora Biruta (2013, 312 páginas) e traduzida por Catarina Meloni (adoro que o nome da tradutora está presente na capa do livro, e não apenas escondido em seu interior).

Ele chegou até mim de um jeitinho especial: participei, um tempo atrás, do Book Tour do livro, organizado pela própria Editora! Nunca havia participado de um Book Tour antes, então fiquei bastante empolgada com a novidade e mais feliz ainda com a minha experiência de leitura.

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Ele conta a história de Sílvia, uma jovem espanhola de 19 anos, estudante de medicina, que decide largar todo o seu conforto e se voluntaria para trabalhar no RHT (Rural Hopital Trust), um hospital localizado na Índia e que atende, de forma precária, a população mais carente de Mysore.

No entanto, tomar essa decisão não foi nada fácil. Além de não contar com o apoio do pai, que insistia em achar que a escolha dela para o voluntariado foi algo impensado, ela ainda tem que deixar o namorado Arthur para trás, com muitas dúvidas sobre o futuro do relacionamento.

Cheia de indagações e com o coração apertado, Sílvia parte para a Índia não por capricho, mas para fazer o que ama e o que foi destinada a fazer: exercer a medicina da forma mais pura, salvando vidas. Além de se deparar com uma realidade muito diferente da sua, a jovem é colocada diante de situações extremas e conhece pessoas que se tornarão muito especiais, em uma experiência que muda sua vida e seu modo de pensar para sempre.

“A inocência é o que nos torna únicos na complexidade deste mundo. Em geral, as coisas são simples, nós é que as complicamos. Apenas mantendo a inocência podemos crer, sonhar, esperar e aturar.”

O que achei:

Preciso começar avisando que esse livro mudou não só a vida da personagem como a minha, tornando-se um dos meus preferidos! ❤ Infelizmente, nunca vi ninguém falando sobre ele, então espero conseguir, através da resenha, fazê-lo ser lido por mais pessoas.

Sílvia é uma protagonista muito forte: por ser filha de pais famosos, bem sucedidos em suas áreas (sendo que o pai dela também exerce a medicina, mas na área de cirurgias plásticas), e por ser inteligente e muito bonita, todos acham que, para ela, o mundo é colorido e cheio de facilidades. A escolha do voluntariado foi uma forma que Sílvia encontrou de fazer várias coisas ao mesmo tempo: “salvar o mundo”, provar pra si mesma que é capaz de fazer isso e provar aos outros que ela não é uma menina fútil que vive na sombra do dinheiro e da popularidade dos pais.

“Qualquer pessoa, homem ou mulher, deveria agradecer se alguém se apaixonasse por ela, especialmente nestes tempos em que se fala muito de amor, todo mundo utiliza a palavra, mas poucos a praticam.”

A estrada dela na Índia também não é nada fácil. A realidade que ela enfrenta no local, o choque cultural e a precariedade de suprimentos para atender os necessitados são fatores que também influenciam, e muito, no processo de amadurecimento da personagem.

Porém, outras pessoas surgem no caminho dela para tornar a experiência mais prazerosa. A Doutora Elisabet Roca e o Doutor Lorenzo Giner são os responsáveis pelo RHT. Eles são adorados e respeitados pela população, e praticamente trocaram a vida que tinham fora do país para se dedicar as pessoas carentes do lugar. Eles atuam, na história, como os pais postiços de Sílvia na Índia, ajudando-a a lidar tanto com os pacientes quanto com si mesma. A fala deles também é bastante peculiar. A Dra. Roca é sempre muito direta, fala o que pensa e nunca perde tempo com nada (exceto com si mesma), o que dá um toque de realidade a ela. Uma maneira de vermos como o ambiente é capaz de mudar as pessoas.

“Quando uma pessoa sente pena de outra, tudo fica confuso, a amizade se torna servidão, e a servidão é frágil. Amizade significa compartilhar, não dominar.”

Sílvia também conhece um outro voluntário, Leo, que a deixa um pouco balançada. Ele exerce no hospital a função de oftalmologista. No entanto, Leo é daqueles que a veem como uma jovem mimada que consegue tudo por conta de sua beleza extraordinária. Ela representa, para ele, um mundo que ele despreza. Magoado após sofrer uma forte desilusão amorosa e prestes a perder sua bolsa de estudos, ele acaba se tornando agressivo com Sílvia e tornando a convivência com ela bastante desconfortável.

Se, por um lado, Leo, Dra. Roca e Dr. Giner representam, para Sílvia, a ligação dela com seu país, por outro lado são Viji, jovem indiana que ajuda Sílvia no hospital, e Narayan, irmã mais nova de Viji, as responsáveis por mostrar a ela como as coisas funcionam na Índia. Viji, com 18 anos, sonha em se casar. Porém, ela não tem um dos olhos e é manca, o que a deixa a margem da sociedade, já que nenhum homem aceitaria uma mulher com as características dela, exceto aqueles “sem escolha”. Narayan, praticamente uma criança de 13 anos, já é prometida, o que causa ciúmes em Viji, uma vez que, na Índia, é lamentável a existência de uma moça de 18 anos que ainda não é casada.

“Eram os gestos que sempre a comoviam, os pequenos detalhes, a sutileza da doçura.”

Por fim, também conhecemos Mahendra (<3), um jovem rico e de uma casta mais elevada, que é visto pela população como uma espécie de príncipe. Ele vivia enclausurado em sua casa, um verdadeiro palácio, após a morte de sua esposa e filhos. Os dois se conhecem por acaso e o lado misterioso e encantador de Mahendra desperta a curiosidade de Sílvia. E a força e descontração dela o ajudam a abrir as janelas novamente, tanto de sua casa quanto de sua vida. Adorei a relação que foi construída entre eles dois!

O livro foi inspirado em um caso trágico de uma voluntária espanhola, o qual é brevemente explanado nas últimas páginas da obra, e me deixou com o coração apertado.

Em suma, é uma história maravilhosa: é completamente impossível largar o livro até que você chegue ao final, sempre querendo saber mais e mais sobre cada novo desafio vivido por Sílvia e o desenvolvimento do relacionamento dela com os personagens.

“Lembrou-se de uma frase lida não sabia onde, mas que tinha ficado gravada na sua mente. Dizia: ‘Não somos feitos do que somos, mas do que nos falta para completar-nos, aquilo que desejamos.’ Se não estava feita do que ela era, se lhe faltava algo para sentir-se completa, seria o amor?”

A viagem da estudante à Índia, embora tenha um motivo nobre, funciona, na verdade, como um escape. Foi graças a essa experiência que ela aprendeu a lidar com realidades diferentes, sentimentos contraditórios, perdas e, principalmente, consigo mesma. Adorei a escrita limpa e cheia de sentimentos do autor, que não cansa a leitura. Pelo contrário: a torna mais especial. É visível o amadurecimento de Sílvia ao longo da leitura, e o mais gostoso ainda é que, junto a viagem de autoconhecimento dela, é impossível não olhar pra nós mesmos, nos questionar sobre amor, família, escolhas.

Interessante também conhecer um pouquinho da Índia aqui, e o quanto a realidade deles difere da nossa. Apesar de o livro não se aprofundar demais nos aspectos culturais, uma boa parte do impacto entre as culturas está presente ali. No entanto, percebi algo que não difere em lugar nenhum, e cujo sentimento está presente em todas as nações: como as coisas só conseguem ser mais suportáveis quando se tem amor!

“No final das contas, o que completava os seres humanos era quase sempre a mesma coisa: o amor.”

O trabalho de revisão e diagramação está PERFEITO. Honestamente, ainda não tinha lido um exemplar que tivesse sido tão bem trabalho e com detalhes tão lindos! O verso da capa, inícios das partes do livro, finais de capítulos e até o número de páginas – com divisões entre partes de um mesmo capítulo – são todos trabalhados e desenhados em laranja, mostarda e vinho. Não encontrei nenhum errinho de digitação. Essa experiência visual torna a leitura ainda mais gostosa! Para vocês terem uma ideia e comprovarem vocês mesmos, seguem algumas imagens da diagramação, disponíveis no próprio site da Editora:

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De forma geral, me apaixonei por esse livro – tanto que entrou pra minha lista de favoritos! Torceria muito por um retorno de Sílvia ao RHT! A história também me lembrou do livro “O Clube do Livro do Fim da Vida” e do filme “O Despertar de uma Paixão“: ambos contam histórias de pessoas que doaram um pouco da sua própria vida em prol de outras, mais necessitadas, e que acabaram ajudando também a si mesmas. Todos valem muito a pena e recomendo fortemente! ❤

Espero que eu tenha conseguido passar um pouco da mensagem do quanto a leitura desse livro foi especial para mim…! Anotei inúmeras quotes que guardei no coração, para ler e reler no meu dia a dia. Separei algumas aqui para vocês sentirem um pouco do gostinho do livro além das que distribui ao longo do post:

  • “(…) Se o amor é tão importante, você deveria estar do meu lado, apoiando-me, ser menos egoísta. Amar é compartilhar, não só um tempo e um espaço comuns, mas a liberdade de cada um”;
  • “(…) continuou escrevendo, como terapia, para aliviar-se e falar consigo mesma”;
  • “Tinha certeza de que, se todos os casais, se qualquer pessoa apaixonada, pudesse comunicar-se pelo menos uma vez por carta com a outra pessoa, as relações seriam mais fáceis e muito mais intensas. Uma carta exigia absoluta sinceridade”;
  • “É preciso acreditar sempre. Se deixarmos de acreditar, tudo se acaba. E te digo mais: é melhor acender uma vela do que lamentar a escuridão”;
  • “Podia existir amor entre duas pessoas se uma queria mudar a outra? Se ele era incapaz de ver o que ela via e de tentar sentir o que ela sentia…”;
  • “- Odeio dar conselhos, mas este é necessário, tenha cuidado com a Índia. – Por quê? – Muda as pessoas. Dos pés a cabeça. A Índia é poderosa, se cuide. Mais ainda se você é vulnerável. Era.”

NOTA: 5 ❤

Gostaram do livro? Já leram ou leriam? O que acharam? Aproveito para registrar meus agradecimentos à Editora Biruta pela oportunidade que tive de ler esse livro maravilhoso!

Beijos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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