Lido: Claros Sinais de Loucura, de Karen Harrington

“Investigo quais livros eles têm que eu possa querer ler. Toco as lombadas enquanto os examino, cada um com uma história nas suas páginas. Puxo um para ler o texto da capa. Adoro fazer isso. Ler uma descrição curta do livro, que tem só a informação necessária para você saber a história. Antes de colocá-lo de volta no lugar, vejo meu reflexo num pequeno espaço entre os volumes. Também sou um livro não lido. Estou esperando para saber o que acontecerá comigo.”

Oi, pessoal!

Vamos começar o mês repostando a resenha desse livro super fofo para vocês! “Claros Sinais de Loucura”, da autora Karen Harrington, foi publicado pela Editora Intrínseca (2014, 256 páginas) e resolvi lê-lo porque é o preferido da minha amiga Keyla, que faz parte do Literamigas junto comigo. Queria saber o motivo dela ter amado tanto o livro e a curiosidade me venceu.

claros sinais de loucura livro

Ele conta a história da Sarah Nelson, uma menina muito peculiar que passa o tempo escrevendo cartas para Atticus Finch, o advogado do livro “O Sol é Para Todos“. Ela tem alguns hábitos bem curiosos, como colecionar palavras-problema em um diário, tem uma planta como melhor amiga e vive tentando achar em si mesma sinais de que está ficando louca – isso porque sua mãe tentou afogá-la e ao irmão quando eles tinham apenas dois anos. Por conta desse acidente, sua mãe mora em uma instituição psiquiátrica desde então.

O pai de Sarah é um professor que se tornou alcoólatra e vive fugindo da notoriedade do crime que a mãe da menina cometeu. Por isso, eles vivem mudando diversas evezes de cidades, e a menina jamais se sentiu em casa em nenhuma delas. Com a chegada do verão em que completa doze anos, ela está cada vez mais apreensiva. Sente falta de um pai mais presente e das experiências que não viveu com a mãe, já se acha grande demais para passar as férias na casa dos avós, está preocupada com a árvore genealógica que fará na escola e ansiosa pelo primeiro beijo de língua que ainda não aconteceu. Mas a vida não pode ser só de preocupações, e, entre uma descoberta e outra, Sarah vai perceber que seu verão tem tudo para ser muito mais. Bem como seu futuro.

“— Se a senhora tivesse uma filha, o que diria a ela? A Sra. Dupree sorri. — Ah, deixe-me pensar — responde. — Bem, eu diria: sempre que comprar uma blusa nova ou algum  creme para ficar bonita, vá e compre um livro na mesma hora. Também é importante embelezar a mente, não acha?”

O que achei:

Bem, pra começar, foi difícil terminar essa resenha, rs. Foi bem complicado ordenar meus pensamentos e encaixá-los aqui, principalmente porque o livro me deixou com sentimentos contraditórios e fortes… Como a sinopse já conta praticamente boa parte da problemática do livro, vou me ater a minha opinião sobre a leitura.

Para início de conversa, vou confessar: até a metade, o livro ainda não tinha me convencido. Fiquei o tempo todo esperando uma super reviravolta, um acontecimento mais interessante, e nada vinha. O início é meio arrastado, maçante e a protagonista, Sarah, não me conquistou de primeira, pois a achei bem chatinha e implicante.

“Infelizmente, ela não tem o privilégio de possuir a sabedoria do meu pai. Ele sempre diz que uma pergunta bem-feita mostra mais inteligência e interesse do que dois parágrafos de falatório.”

Ela tem apenas 12 anos, mas senti uma confusão entre o comportamento esperado de uma menina dessa idade e a forma como a autora descreveu suas ações. Por vezes ela parece mais como uma mini adulta, com pensamentos maduros demais para a idade (sem qualquer semelhança com realidade), e isso não me fazia enxergá-la como uma criança. Em outros momentos, ela demonstra ser uma menininha birrenta que acha tudo e todos super chatos, outra vertente da personalidade dela que gostei menos ainda.

Sarah é bem peculiar por conta, justamente, de seus comportamentos. Ela tem algumas manias que a fazem questionar se ela não está ficando louca como sua mãe. Falar com Planta, sua amiga que literalmente é uma planta, é uma delas. Observar a vizinhança de cima de um toco de árvore também, assim como escrever em dois diários ao mesmo tempo: um onde ela fala sobre coisas aleatórias da vida de uma garota (e para despistar quem o encontre) e outro com seus reais sentimentos. Sarah também é viciada em palavras e o livro é recheado dos significados das palavras que se tornam suas favoritas ao longo do tempo.

“Lisa está errada sobre beijos e amor. Podem deixar você bonita no início, mas também deixam você com cara de idiota.”

Nas férias de verão, a garota deveria ter ido para a casa dos avós, algo que ela não quer de jeito nenhum, por achar que vai ser chato. Seu pai decide, então, deixá-la com a vizinha, Charlotte, enquanto ele está trabalhando. É a partir desse ponto que o livro começou a ficar interessante pra mim.

A convivência com Charlotte e com o irmão dela, Finn, ambos jovens, fazem Sarah se sentir especial, amada e compreendida, sentimento que ela não encontra em casa, no próprio pai. Finn foi um personagem que amei muito, pois ele é extremamente sensível ao jeitinho da Sarah: a trata de igual pra igual, sem tentar fazê-la se sentir inferior por  conta da idade.

“E há montes de livros que não li, mas posso esperar. Livros não estragam. Não azedam como leite, que é preciso beber dentro do prazo de validade.”

Outra personagem que me cativou foi a Sra. Dupree, uma idosa que também é vizinha de Sarah. Ao observar que o carro da família não saia da garagem há muito tempo, Sarah fica preocupada e decide visitá-los para saber o que aconteceu. O motivo é triste e emocionante, o que rendeu as melhores partes do livro.

A convivência com esses personagens deixou a história muito mais rica e foi um divisor de águas. Tornou minha leitura mais fluida e me fez querer chegar até o final, bem como transformou a própria Sarah. Ao meu ver, é como se, no início, ela estivesse mascarando seus sentimentos e sua realidade levantando um muro ao redor de si, preocupando-se com “coisas de garota” (como dar o primeiro beijo de língua e furar a orelha, por exemplo) que pareciam mais importantes que a situação da família dela, quando, na verdade, ela só queria se libertar da vida “chata” que tinha, sem o carinho e a atenção do pai, sem obrigações de uma pessoa adulta, sem lidar com os intensos sentimentos com os quais tinha que lidar, por ter perdido o irmão, por não falar com a mãe e por ter que ficar fugindo constantemente do seu passado.

“Vou para o meu quarto e me pergunto como um cérebro consegue se lembrar das letras sem escrevê-las. Como ele decide quais coisas guardar e quais esquecer. Deve haver pequenas lembranças grudadas dentro da mente, como chicletes embaixo de uma mesa. É preciso muito esforço para arrancá-las, então ou você quer mesmo se livrar delas, ou vão ficar lá para sempre, secas e duras.”

Com Finn, Sarah aprende sobre o significado do amor; com Charlotte, o quanto os relacionamentos são complicados; e, com a Sra. Dupree, ela é capaz de sentir o calor do amor familiar que não recebe em casa. Com relação a essa última, é muito gostosa essa troca entre Sarah e ela, de vê-la se importando com os sentimentos de outra pessoa e desejando fazer-lhe bem.

Ao contrário da maioria das pessoas que leram, não achei o livro engraçado. Para mim, ele foi muito mais reflexivo do que qualquer outra coisa. Como disse no início, embora seja bem parado no começo, ao final a gente percebe que essa era a intenção real do enredo. Conversando com a Keyla, chegamos à conclusão de que ele é passível de várias interpretações. E, para mim, ela foi singela, tocante… Uma jornada de busca por respostas e amadurecimento que podem aguardar a gente em qualquer idade da vida, inclusive aos 12 anos recém-completados.

“É engraçado como eu não sabia que era só um monte de peças soltas até que alguém me abraçou forte.”

Estou tentando fazer resenhas mais curtas e sucintas, mas tem sido muito desafiador para mim, especialmente quando o livro penetra dessa forma, rs. E, ainda assim, acho que não consegui passar nem metade do que gostaria pra vocês! Grifei muitas quotes, porém a grande maioria delas faz parte da metade para final do livro. Tentei separar só algumas pra vocês sentirem um pouco da intensidade dele, mas não consegui excluir nenhuma, rs. Espalhei algumas ao longo do post, mas também gostaria de dar destaque para essas aqui:

  • “Essa é a questão dos problemas. Quando um se resolve, tem outro pronto para tomar o lugar dele.”;
  • “Ele vai ficar com raiva de mim. Vai ficar com aquele tipo de raiva silenciosa, que é a pior de todas. Não há maneira de entrar na mente de uma pessoa quando ela está calada.”;
  • “(…) mas as pessoas em geral são o que decidem ser, não importa de onde vieram.”;
  • “- Este é o meu melhor amigo, bem aí – disse ela. – Todo dia quando saía de casa, ele  gritava para mim: ‘Obrigado por ter dito sim, amor’.”;
  • “Mesmo que eu tivesse sonhado com esta cena – esta música, este vestido, este chapéu, este garoto – durante toda a minha vida, nunca teria conseguido criar um roteiro melhor.”;
  • “É preciso dizer a verdade às pessoas.”;
  • “Descobri que é preciso escolher ter coragem todos os dias, como se escolhe a camisa que vai vestir. Não é automático.”;
  • “Um fuzileiro naval tatuado atravessa correndo o saguão, abraça uma garota loura, levanta-a do chão e gira com ela. É a coisa mais fofa. Um dia quero que isto aconteça comigo: uma pessoa tão feliz em me ver que tire meus pés do chão.”;
  • “A parte dividida de mim grita dentro da minha cabeça. Eu não me importo. Eu me importo. Não quero mais me importar com o que as pessoas sentem. Morro de medo do que as pessoas pensam.”;
  • “Depois que algo muda na sua vida, é melhor esperar por mais mudanças. É como derrubar o primeiro dominó. As outras peças não podem fazer nada, só cair onde estão. Se você tiver sorte, não vai se importar com o jeito como elas caem.”;
  • “(…) quando alguém é tão bonito de se ver, fica difícil olhar para outra coisa.”

NOTA: 3

Minha nota só não foi maior por conta do bloqueio que senti no início. Fora isso, fico feliz de ter insistido em continuar a leitura. Caso contrário, não teria finalmente percebido toda a sensibilidade da Karen ao desenvolver a Sarah Nelson… ❤

Vocês já leram? Concordam ou discordam de mim em algum ponto? Adoraria saber a interpretação que vocês tiveram, e se foi ou não parecida com a que eu tive!

Um grande beijo a todos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

2 thoughts

  1. Li esse livro há algum tempo e admito que concordo com você, eu não achei em nenhum momento a leitura divertida, achei reflexivo, simples, mas engraçada, não! rs.
    Acho que esse é um daqueles livros, que a experiencia do leitor vai ser decisiva para a interpretação da historia, claro isso acontece com todas as leituras, mas acredito que isso é um daqueles em que isso fica claro o tempo inteiro.
    Bjins

    Liked by 1 person

    1. Sim, isso mesmo. Uma das Literamigas não gostou, por exemplo, e não conseguiu tirar proveito de nenhuma lição dele. Já eu, mesmo tendo começado com uma primeira impressão ruim, acabei amando e me emocionando no final… ❤
      Adorei sua opinião! Bjocas!

      Liked by 1 person

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