Resenha: Desconstruindo Una, de Una

“A polícia, a imprensa, o públicos, todos se concentraram em procurar evidências de moral questionável nas vidas do crescente número de mulheres que alguém atacou. Afinal, elas devem ter feito alguma coisa terrível para merecerem ser atacadas tão brutalmente – e o que é a pior coisa que uma mulher pode fazer?”

Oi, oi, gente!

Hoje vim falar sobre minha décima leitura do ano: “Desconstruindo Una“, de Una, um quadrinho impactante publicado pela Editora Nemo (2016, 208 páginas). Temos como personagem principal Una, que, com 12 anos, vivencia abusos terríveis dos quais se culpa até a vida adulta. Ela mora em West Yorkshire, no ano de 1977, e em paralelo com a história de Una, um assassino em série aterroriza o pequeno condado inglês, matando várias mulheres que, segundo ele, possuem uma conduta social duvidosa.

DESCONTRUINDO UNA GRAPHIC NOVEL CAPA.jpg

A polícia encontra dificuldade em resolver o caso – mesmo tendo interrogado o assassino (sem o saber) nada menos que nove vezes. Por meio de um entrelace de imagem e texto, o quadrinho examina o significado de se crescer em meio a uma cultura na qual a violência masculina não é punida ou questionada. Com uma retrospectiva de sua vida, Una explora sua experiência e se pergunta se algo realmente mudou, desafiando a cultura que exige que as vítimas de violência paguem por ela.

“Experiência é uma coisa maravilhosa.”

O que achei:

É difícil pôr em palavras o que esse quadrinho me causou. Trata-se de uma graphic novel com conteúdo impactante sobre o descaso e falta de credibilidade quando são as mulheres quem clamam por justiça, em um retrato que demonstra o quanto a violência de gênero e o preconceito contra as mulheres existe SIM.

Com dados estatísticos e fatos que mostram o quanto a autora pesquisou e embasou seus argumentos, ficamos cada vez mais revoltados ao virar as páginas. O serial killer que aterrorizou o condado dizia que só matava prostitutas (como se essa observação justificasse seus atos), em uma espécie de chamado religioso, provando o quão fanático ele era. E, ainda assim, as autoridades fechavam os olhos para tanta violência, deixando o assassino livre enquanto cada vez mais mulheres perdiam a vida, prostitutas ou não.

“Por sorte eu gostava de ler. Eu lia um livro atrás do outro. Amava uma boa história. Gostava de arrumá-los e rearrumá-los nas estantes, em ordem alfabética, por autor, por tema ou em ordem de preferência.”

A parte mais triste ainda, porém, é que a sociedade acabava vendo essas mulheres como descartáveis e a repercussão do caso, embora tenha sido alta, não era alarmante o suficiente para que as vítimas fossem levadas a sério.

Enquanto isso, acompanhamos a jornada de Una para superar os abusos sofridos em seu passado e é aí que residiu o meu grande porém. Fiquei com alguns questionamentos que só poderiam ser respondidos pela autora e não o foram. Una sofreu grandes traumas e tentei compreendê-la ao lidar com eles, mas não consegui. O que mais me incomodou foi que, ao longo de sua vida, ela passou por diversos profissionais da saúde mental e afirma que nenhum deles foi capaz de ajudá-la da forma correta. Ela mostra esses profissionais como meros robôs, assistindo-a de forma mecânica e tratando-a sem a menor importância. Isso me deixou encucada.

“Até as coisas que parecem mais bobas causam muita angústia naqueles que vivem com estresse pós-traumático. Coisas que abrem os pontos de um machucado doloroso. Essa é uma das razões pelas quais não importa muito o quanto você queira – é difícil colocar eventos traumáticos completamente no passado, deixar para trás. Os gatilhos podem ser visões, sons e sensações, por exemplo… O toque de um tecido de lã.”

Muitas vezes o próprio paciente constrói esse muro ao redor de si e não se permite ser ajudado. Culpar o profissional, tantos deles, me pareceu injusto. Escrevo isso correndo o risco de ser julgada, porém estou ciente de que essa minha percepção se deve a minha ignorância e ao fato de eu não ter propriedade sobre o assunto; ainda assim, me senti compelida e conversar sobre ele. Se alguém quiser me esclarecer e conversar mais a respeito, de forma civilizada, eu vou mais que adorar ter uma nova percepção.

“Minhas asas não parecem funcionar muito bem. Talvez elas sejam apenas decorativas?”

DESCONTRUINDO UNA

“Mas, você sabe, não há nada a ser temido no escuro que também não exista na luz do dia.”

Embora a arte em si não tenha me agradado, gostei bastante da leitura e a considero super válida para TODOS, homens e mulheres, se desconstruírem acerca da violência contra as mulheres. Não é por ser contada em forma de desenhos que deixa de ser uma leitura forte: pode provocar gatilhos em vítimas de abuso, bem como deixa um gosto amargo em quem tem um mínimo de empatia pelos seres humanos. Deixo esse dica para vocês: leiam “Desconstruindo Una” e recomendem essa que é uma leitura relevante para todos, tanto pelo seu impacto quanto por sua reflexão.

Sobre a edição: achei o trabalho impecável. Os desenhos usam apenas a cor preta e nuances de cinza, porém o vermelho se destaca em algumas passagens. Os traços são simples, porém captam a confusão e os devaneios da autora ao escrever sua história, como se estivéssemos dentro de sua cabeça. Existem notas ao final do livro que explicam dados verídicos apontados ao longo do quadrinho e que aumentam a nossa revolta experiência de leitura.

“Porque coisas ruins não acontecem com pessoas boas.”

NOTA: 4

E vocês, já leram o quadrinho? O que acharam?

Um grande beijo a todos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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