Resenha: Peter Pan, de J. M. Barrie

“É humilhante ter que confessar que essa arrogância de Peter era uma de suas qualidades mais fascinantes. Para falar com total franqueza, nunca existiu um menino mais arrogante nesse mundo.”

Oi, oi, gente!

Já estava com saudades de resenhar por aqui e hoje já inicio com as resenhas das leituras de 2020! “Peter Pan“, de J. M. Barrie, foi o primeiro livro que concluí em janeiro. O li para a discussão do Clube de Leituras Clássicos Zahar do mês passado, no qual sou uma das mediadoras. O li pelo Kindle Unlimited, pois a versão pocket ilustrada da Editora Zahar (2013, 253 páginas) está disponível lá. A Editora também possui a edição em formato maior, comentada e ilustrada. Ambos são capa dura com folha de guarda colorida – um capricho! ❤

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Trata-se de uma história infantil onde, em certa noite, um menino um tanto quanto diferente e especial chamado Peter Pan convida Wendy Darling e seus irmãos – João e Miguel – a voar, com a ajuda da ciumenta fada Sininho, em direção à Terra do Nunca, uma ilha mágica habitada pelos meninos perdidos que não querem crescer.

“A gente sempre sabe depois dos dois anos. Dois anos é o começo do fim.”

O que achei:

Acredito que quase todo mundo cresceu assistindo aos filmes infantis da Disney, e “Peter Pan” é um de seus mais famosos. O tão popular menino que não queria crescer é conhecido por todos e encanta tanto jovens quanto adultos que se identificam com a filosofia do livro (quem nunca também ouviu falar em “Síndrome de Peter Pan”?).

Confesso, no entanto, que essa nunca foi um das minhas histórias preferidas, principalmente pela personalidade de Peter. O personagem é um dos mais controversos que já conheci, sendo extremamente vaidoso e cruel, o que a princípio não parece se encaixar com as características infantis da bondade e inocência que esperamos encontrar nas histórias para crianças.

“Era uma moça encantadora, dona de uma mente romântica e de uma boca tão doce e debochada. Sua mente romântica era como aquelas minúsculas caixinhas que vêm do misterioso Oriente, uma dentro da outra, e, por mais que você encontre mais uma caixinha, sempre tem outra menor.”

A história, na verdade, sequer foi iniciada como um livro. Seu autor, antes de colocá-la no papel, a contava para os filhos pequenos de seus amigos como uma forma de recordar de seu irmão, que faleceu ainda muito jovem. Além disso, a história antes tornou-se uma peça, na qual o filme foi baseado, para só então poder virar páginas de um livro.

Existem diversos elementos fantasiosos no enredo, bem típicos das histórias infantis, como voar, conversar com estrelas, fadas ciumentas, uma babá que na verdade é uma cachorra e muitos outros!

“À noite, todas as boas mães esperam seus filhos irem dormir para remexer suas mentes e arrumar tudo para a manhã seguinte, recolocando nos locais certos os diversos itens que saíram do lugar ao longo do dia. Se você conseguisse ficar acordado (mas é claro que não consegue), ia ver sua mãe fazendo isso, e ia achar muito interessante observá-la. É igualzinho a arrumar gavetas.”

Os pais das crianças Darling são de uma crítica incrível, principalmente o Sr. Darling, homem vaidoso, tolo e que gostava de ostentar o que não tinha. Há diálogos surreais, como quando os pais fazem cálculos e teorias se ficam ou não com as crianças devido a como a permanência delas na casa ia afetar as finanças da família.

É justamente por isso que ele possuem uma babá canina que, apesar de cuidar muito bem das crianças, foi escolhida para a função apenas por representar um custo a menos. A redenção do Sr. Darling foi um dos pontos fortes pra mim na leitura!

“Nessas praias mágicas as crianças sempre irão ancorar seus barquinhos. Nós também já estivemos lá; ainda podemos ouvir o barulho das ondas, mas nunca mais vamos desembarcar.”

Outro ponto interessante é que, para a época em que foi escrito, o livro possui elementos bastante machistas, como a necessidade de se levar Wendy a Terra do Nunca para que seja “mãe” dos meninos perdidos. Por mãe, entende-se cuidar das crianças e da casa. Assim, Wendy quase não participa das brincadeiras e aventuras, aparecendo constantemente a remendar roupas, fazer comida e cuidar dos garotos. Ao mesmo tempo, existe o contraste de apresentá-la sempre como a personagem mais sensata, onde as meninas são constantemente elogiada como mais inteligentes que os meninos.

E por falar em aventuras, temos aqui bastante crueldade para um livro infantil. Os garotos, que tem como inimigos os piratas e seu chefe, o famoso Capitão Gancho, disputam episódios sangrentos, com direito a espadas, mortes e sangue! Confesso que fiquei chocada de encontrar esses elementos, mas, em contrapartida, o conflito a bordo do navio pirada foi a minha parte preferida da história.

“As estrelas são lindas, mas elas não podem se envolver em nada, precisam sempre ficar só olhando. É um castigo que receberam por causa de algo que fizeram há tanto tempo que nenhuma delas lembra mais o que foi.”

Para finalizar, a mensagem do livro (que, sendo honesta, só captei após a discussão com os outros leitores do clube) é essa visão de que a infância deve ser bem aproveitada, ignorando-se o futuro que nos espera enquanto adultos, onde a magia e a forma simples e leve de ver a vida, acreditando no impossível, acabam desaparecendo dos nossos corações, dando lugar a uma existência monótona e sem aventuras.

O único que parece imune a essa ação do tempo é o próprio Peter, que representa, então, o clico infinito da magia presente na infância, que nunca se acaba enquanto novas gerações de crianças que acreditam nele vão surgindo no mundo.

“Por isso, as mais velhas ficam com os olhos vidrados e quase nunca falam (piscar é a língua das estrelas), mas as mais novinhas ainda se perguntam o porquê das coisas.”

Foi uma experiência muito interessante ter lido esse livro. Gosto muito de reler contos de fadas e perceber que, na vida adulta, a gente acaba tendo uma visão muito literal sobre o que lemos, reforçando a teoria do livro de que perdemos o encanto com a idade. Discuti-lo foi mágico, pois pudemos nos relembrar da nossa infância e do quanto essa leitura seria mais bem aproveitada na nossa mente infantil – embora as lições morais, as pequenas críticas sociais e o sarcasmo da escrita só sejam compreendidos pelos adultos.

Como disse, não é meu conto de fadas preferido e não simpatizei com o personagem novamente. Há trechos um pouco confusos, que admito não ter entendido, mas acredito que é uma leitura muito válida para crianças que estão iniciando sua vida leitora e adultos que gostam de ler um bom clássico que atravessa gerações – não só para apreciá-lo, mas entendê-lo em seu contexto histórico e de criação por trás da obra, muitas vezes mais interessantes que ela própria.

“Ele não apenas não tinha mãe, como não tinha a menor vontade de ter uma. Achava que todo mundo dava uma importância exagerada para as mães.”

Até me surpreendi com a quantidade de quotes que marquei! Separei algumas para espalhar aqui pelo post, mas também se destacam:

  • “Wendy, uma menina vale mais do que vinte meninos”;
  • “Sabe, Wendy, quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, o riso dele quebrou em milhares de pedaços e todos eles saíram pulando, e esse foi o começo das fadas. As crianças sabem de tanta coisa hoje em dia que logo param de acreditar nas fadas. E toda vez que uma criança diz ‘Eu não acredito em fadas’, uma fada cai morta em algum lugar”;
  • “Você sabe, as meninas são inteligentes demais para caírem dos carrinhos”;
  • “A coragem de Peter era quase de dar medo”;
  • “As fadas têm que ser ou uma coisa, ou outra, pois, como são tão pequenas, infelizmente só têm espaço para um sentimento de cada vez”;
  • “Wendy ainda não sabia que Sininho a odiava com o ódio feroz de uma mulher de verdade”;
  • “Gancho ainda se portava um pouco como um fidalgo, e até estraçalhava seus inimigos com ares de grandeza. Além disso, já me disseram que era um grande raconteur. Ficava mais sinistro quando se comportava com mais polidez, o que provavelmente é a verdadeira marca registrada dos aristocratas; e a elegância de sua dicção, até quando falava palavrões, assim como a superioridade de seu comportamento mostravam que ele não era da laia de sua tripulação”;
  • “Barrica tinha muitas características encantadoras. Por exemplo, depois de matar, ele limpava os óculos, e não a arma”;
  • “– Meu Deus, às vezes acho que quem não tem filho é que é sortudo!”;
  • “Como acontece com os melhores piratas, havia um toque feminino em sua natureza perversa, e ele, às vezes, tinha intuições”;
  • “Toda criança se sente assim da primeira vez que é tratada com injustiça. Quando a criança se aproxima de você, querendo se entregar a você, a única coisa que ela pensa que merece é um tratamento justo. Depois que você for injusto com ela, ela vai voltar a amá-lo, mas nunca mais vai voltar a ser a mesma criança. Ninguém nunca se recupera da primeira injustiça”;
  • “Mas ela era uma dona de casa leal demais para concordar com qualquer reclamação contra o papai”;
  • “– Puxa vida! – exclamou Wendy. – Às vezes acho que as crianças não valem tanto trabalho”;
  • “De repente, nós desaparecemos como as coisas mais desalmadas desse mundo, que é o que as crianças são, mas também tão encantadoras; e nos divertimos muito, no maior egoísmo; e aí quando precisamos de um pouco de atenção especial, generosamente decidimos voltar, confiantes de que seremos recebidos com beijos e não com tapas”;
  • “Quando a novidade chama, as crianças estão sempre prontas para desertar aqueles que mais amam”;
  • “(…) nenhum homem branco consegue surpreender peles-vermelhas honestamente”;
  • “O capitão sempre foi um enigma cruel e solitário, e ele se mantinha distante de seus seguidores não apenas física, mas também espiritualmente”;
  • “Embora seus pensamentos fossem sombrios, seus olhos continuavam com o azul suave do céu diurno”;
  • “E, embora Firula fosse um menino um pouco bobo, ele sabia que as mães estão sempre dispostas a assumir a responsabilidade por tudo. Isso é uma coisa que todas as crianças sabem e, apesar de elas desprezarem suas mães por esse motivo, usam essa desculpa o tempo todo”;
  • “Não se pode lutar contra o destino”;
  • “Coisas estranha acontecem conosco ao longo da vida, e nós podemos passar um bom período sem perceber que elas aconteceram”;
  • “O crocodilo, como todos que viram escravos de uma ideia fixa, não passava de um burro”;
  • “– Dizem que o sinal mais definitivo de que um navio está amaldiçoado é quando tem uma pessoa a mais a bordo e ninguém sabe explicar como”;
  • “– Eu sou a juventude, eu sou a alegria – respondeu Peter num impulso. – Sou um passarinho que furou a casca do ovo”;
  • “Quando as pessoas crescem, elas não lembram mais como se voa. Só quem é alegre, inocente e desalmado consegue voar”.

Reproduzi praticamente o livro inteiro aqui, rs! Mas não tinha como deixar passar essas quotes. Apenas lendo algumas delas, vocês conseguem captar toda a intenção do autor por entre as entrelinhas. Espero que tenham um dia a oportunidade de lê-lo!

NOTA: 3

Mas e vocês, já leram? O que acharam? Um grande beijo a todos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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