Resenha: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells

“O que poderia ter ocorrido com a humanidade? E se a crueldade se tivesse transformado em uma paixão por todos adotada?”

Oi, oi, gente!

Abril chegou e, em tempos de quarentena, resolvi participar de um projeto para manter minhas resenhas em dia com vocês: o Blog Every Day April! Trata-se de um desafio (que pode ocorrer em abril ou agosto) onde teremos posts diários aqui no blog durante todo o mês! ❤

Bem, hoje vim conversar sobre minha primeira leitura finalizada no mês de março e a 9ª do ano: “A Máquina do Tempo“, de H. G. Wells. A edição que li foi da Editora L&PM (2017, 160 páginas), disponível no Kindle Unlimited.

Trata-se de um livro escrito em 1985, considerado um dos primeiros livros de romance / ficção científica onde aparece o subgênero viagem no tempo, sendo essa a quarta dimensão. É o primeiro escrito do autor, cujo popularidade ficou tão em alta que o consagrou como “pai da ficção científica”.

A Máquina do Tempo
Aqui nós acompanhamos as aventuras do Viajante do Tempo para o futuro, mais precisamente nos anos oitocentos mil e bolinhas, em uma era na qual a humanidade se resume a duas raças: os pacíficos e etéreos Elóis e os predadores e subterrâneos Morlocks. O Viajante, que não carrega mais do que uma caixa de fósforos consigo, terá que aprender a se movimentar entre esses dois mundos e decifrar um segredo macabro, correndo o risco de nunca mais conseguir voltar à Londres de sua época.

O que achei?

A sinopse sucinta do livro já resume bem o que vamos encontrar ao longo da leitura. Nosso protagonista, o Viajante do Tempo, não possui nome e o conhecemos apenas por essa alcunha. Ele, que se reúne todas as quintas com seus amigos para o jantar, revela em um desses encontros que estava trabalhando em um máquina capaz de percorrer a quarta dimensão: o tempo!

Por julgarem tal fato impossível, os amigos do Viajante acabam achando que ele os está enganando. Assim como nosso personagem principal, muitos dos personagens também não tem seus nomes revelados, mas são designados por suas profissões. Um ou outro personagem é finalmente nomeado, mas nada que atrapalhe ou incomode durante a leitura.

“(…) qualquer corpo real deve ter extensão em quatro direções. Ele deve ter comprimento, largura, espessura e duração.”

Os primeiros capítulos, onde ocorre a explanação sobre a viagem no tempo e sua possibilidade, são bem mais densos que o restante do livro. Existe realmente uma explicação mais intensa envolvendo física e a análise das dimensões, se valendo de fato do gênero ficção científica, mas, para mim, essa parte complicada para por aí.

A seguir, em um próximo jantar, o Viajante revela detalhes de seu primeiro contato com o futuro, o qual o frustra por não corresponder às suas expectativas – e, de certa forma, às nossas também. Geralmente quando pensamos no futuro, temos aquela visão onde a tecnologia impera e o conhecimento sobre tudo é muito mais elevado. Porém, o autor trabalhou uma comunidade ontem quase todos as espécies que conhecemos entraram em extinção, restando apenas uma evolução dos humanos em dois tipos de criaturas: os Elóis e os Morlocks.

“Existem realmente quatro dimensões, as três que habitualmente referimos com os três planos do Espaço e uma quarta, que é o Tempo.”

Essa divisão, no entanto, é demasiada simples, e não há muitos detalhes sobre como esse universo surgiu nem porque as coisas são como são. O Viajante traça suas teses sobre a estrutura do lugar, mas, a medida que convive com eles, vê que quase todas as suas percepções são equivocadas.

Começa, então, uma análise mais política, social e biológica do que científica desse mundo futurístico, sem qualquer aprofundamento baseado em ideias realísticas da ciência, como uma fantasia. Embora o livro tenha me prendido, não achei nada de verossímil. Soa bastante como um devaneio do personagem.

“Mas não há diferença entre a dimensão do Tempo e qualquer das três dimensões do Espaço, salvo que a nossa consciência se move ao longo da primeira.”

Há, ainda, um romance do Viajante com uma Elói que, confesso, achei deveras estranho, uma vez que se frisa bastante durante o livro que a aparência dessa espécie é como a de uma criança, tanto em suas características físicas quanto mentais, o que me pareceu levemente incestuoso, mas que acaba por trazer um elemento diferente à leitura.

Em suma, foi um livro que me agradou bastante, mesmo com os pontos levemente negativos apontados aqui. Por ser de fácil compreensão, sem uso de linguagem própria, recomendo bastante para quem não lê ficção científica e quer se aventurar pelo gênero! Além disso, é um livro curtinho e bem fluido, perfeito pra ser lido em um ou dois dias!

“As pessoas de formação científica sabem muito bem que o Tempo é tão somente outro aspecto do Espaço.”

LIVRO X FILME

A Máquina do Tempo 1A Máquina do Tempo” ganhou duas adaptações com o mesmo nome do livro: uma em 1960 e outra em 2002. Meu interesse pelo livro surgiu com a última e minha intenção era aprofundar mais a história que vi nas telas. Porém, os enredos não poderiam ser mais diferentes.

Na versão de 2002, nosso viajante tem nome: Alexander Hartlegen, interpretado por Guy Pearce. Ele é um cientista que acredita piamente que seja possível viajar no tempo. Após sua namorada Emma (interpretada por Sienna Guillory) ser assassinada durante um assalto, ele decide então passar da teoria à prática e consegue construir uma máquina do tempo. Só que, ao testá-la, Alexander viaja mais de 800 mil anos rumo ao futuro, onde encontra o planeta Terra sendo dominado pelas duas raças que já comentamos aqui.

As diferenças são muitas, desde a aparência dos Elóis e seu modo de vida (no livro, são humanos normais com um modo de vida mais primitivo), a forma de se comunicarem (falam a língua comum, o inglês) e as características dos Morlocks (aparecem durante o dia, por exemplo, fato que no livro não acontece), além da própria motivação de Alex para viajar no tempo. Apesar disso, é um filme muito gostoso de assistir, principalmente pelo fator nostalgia.

Não assisti ao filme de 1960, mas, pelo trailer, é possível ver que possui muito mais semelhanças que sua adaptação mais recente. Outra curiosidade é que o nosso personagem principal, o Viajante do Tempo, recebeu nada mais, nada menos  que o nome do autor do livro!

“(…) se o Tempo for realmente uma quarta dimensão do Espaço, por que é e por que sempre foi considerado algo totalmente diverso? E por que razão não podemos nos mover ao longo do Tempo de maneira semelhante àquela com que nos movemos à vontade pelas outras dimensões do Espaço?”

Coloquei espalhadas pelo post algumas quotes que me chamaram atenção durante a leitura, mas também se destacam as citações abaixo:

  • “Mas não é possível mover-se absolutamente no Tempo. Jamais podemos nos afastar do momento presente.”;
  • “Nós podemos nos mover em todas as direções do Espaço, mas não podemos nos mover através do Tempo.”;
  • “(…) o senhor continua errado ao afirmar que não podemos nos mover através do Tempo. Por exemplo, no instante em que me recordo vividamente de um determinado incidente no passado, estou voltando para o momento de sua ocorrência.”;
  • “O fato é que o Viajante do Tempo era um daqueles homens que se demonstram espertos demais para que acreditemos totalmente neles.”;
  • “É um erro fazer as coisas de maneira fácil demais.”;
  • “(…) a íntima semelhança entre os sexos era, no final das contas, o que se poderia mesmo esperar, já que a força de um homem e a maciez de uma jovem, a instituição da família e as diferenças ocupacionais são meras necessidades resultantes de uma era baseada no emprego da força física. Quando a população é equilibrada e abundante, o excesso de nascimentos se torna um mal em vez de uma bênção para o Estado; quando a violência só ocorre muito raramente e a descendência cresce em plena segurança, existe menor necessidade – de fato, não há necessidade alguma – da eficiente instituição familiar e toda especialização dos sexos com referência ao atendimento e à proteção dos filhos simplesmente desaparece.”;
  • “Mas agora, onde se encontram esses perigos iminentes? Existe um sentimento crescente, que certamente tenderá a crescer ainda mais, contrário ao ciúme matrimonial, à maternidade feroz, às paixões de todos os tipos; tornam-se hoje coisas desnecessárias, na realidade coisas que nos deixam desconfortáveis, sobrevivências selvagens que se opõem a uma vida refinada e agradável.”;
  • “A coragem física e o amor pela batalha, por exemplo, não nos ajudam muito – e mesmo nos podem prejudicar – em nosso próprio mundo civilizado.”;
  • “Nossas faculdades são mantidas aguçadas pela aspereza da dor e da necessidade”;
  • “Esta seria minha única esperança, um fiapo de esperança, talvez, mas sempre melhor do que o desespero.”;
  • “Eu experimentava aquela sensação que algumas vezes nos atinge no início da manhã, uma coisa fria e incerta, com que vocês devem estar familiarizados. Coloquei em dúvida o que meus olhos haviam visto.”;
  • “‘Se cada geração morre e deixa seus fantasmas atrás de si’, argumentara ele, ‘no final das contas o mundo ficará superlotado de espíritos.'”;
  • “Percebi que o Gênero Humano não permanecera em uma só espécie, mas se havia diferenciado em dois animais distintos.”;
  • “O que mais eu lastimava era a certeza de quão breve fora o sonho do intelecto humano. Acabara por cometer suicídio. Havia-se orientado com tanta firmeza à busca do conforto e do lazer, à construção de uma sociedade equilibrada cuja palavra de ordem era a segurança e a capacidade de controlar seu mundo, que tinha satisfeito todas as suas esperanças – para acabar chegando a este ponto.”;
  • “A natureza nunca apela para a inteligência até que o hábito e os instintos tenham se tornado inúteis. A inteligência não se desenvolve onde não há mudança nem necessidade de mudanças. Somente partilham da inteligência os animais que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e de perigos.”;
  • “(…) toda a vida é um sonho, um sonho terrivelmente sem graça em certas ocasiões (…).”;
  • “(…) mesmo depois que a inteligência e a força tiverem desaparecido, a gratidão e uma ternura mútua ainda perduravam no coração dos seres humanos.”.

Desculpem a quantidade, mas realmente me empolguei com a leitura! Espero que vocês, caso ainda não a conheçam, tenha a oportunidade de ler e compartilhar suas interpretações. Embora eu não creia que, em nosso futuro, retornemos a um status social como o do livro, acredito que inúmeras formas de ver o livro são possíveis, inclusive cabendo, aqui, análises marxistas e darwinistas. Não percam a oportunidade de conhecer esse grande clássico de ficção científica!

NOTA: 4

Mas e vocês, já leram? O que acharam? Um grande beijo a todos e até a próxima!

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Autor: Andresa Lee

30. Macapaense. Ama livros, jogos, doces, cães, Star Wars, conversas, nerdices e Netflix. Além de blogger literária no UDML, faz parte do canal Literamigas no Booktube.

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